Segunda-feira, 4 de Setembro de 2006

2º tratamento

Segunda-feira,
14 de Agosto de 2006
 
No convés da madrugada procuro uma rocha, um mastro, um farol discípulo dos crepúsculos. Sei – tenho a certeza – que terei algo a que me agarrar quando esta alma barroca mergulhar no escuro pela milésima vez”.
 
Hoje tive o segundo tratamento. Estava marcado para o meio-dia e começou pouco depois. As análises que fiz na sexta – temos sempre que fazer análises antes para se ver se os valores estão suficientemente bons para prosseguir com a sessão estipulada – estavam boas. Os valores da hemoglobina baixaram um pouco mas, em contrapartida, os valores tumorais também diminuíram. Fiquei contente.
 
Ao fim de três horas de vários saquinhos de produtos, chegou a vez do maior de todos. Tem meio litro e é administrado ao longo de três horas. Ainda não tinham passado cinco minutos e senti imenso calor no estômago. Senti-me incomodada e ajeitei-me. De repente começaram umas dores tão fortes nos rins que parecia que tinha dois corações a pulsar em cada um. Pedi ajuda às enfermeiras, que vieram de imediato ver o que se passava. A minha médica também apareceu e agarrou-me na mão para me tranquilizar enquanto a dor não desaparecia. O carinho que emana do tacto é muito importante. O ginecologista a quem pedi uma segunda opinião – bendita a hora, senão ainda hoje pensaria que não tinha nada de mal, que se tratavam apenas de uns miomas que seriam retirados numa cirurgia de rotina – e o fantástico médico que me operou também faziam o mesmo quando estavam comigo. Faziam-me uma festinha no braço ou no cabelo. Sentimo-nos queridos e sabe bem.
 
Não tenho implante no peito, por isso levo uma pica em cada tratamento. Temos que avisar sempre que doer, pois o líquido pode estar a extravazar. As enfermeiras dizem que há quem não se queixe por recear ser puncionado de novo, mas devemos sempre informar sobre qualquer incómodo ou dor que estejamos a sentir.
 
Administraram-me duas injecções de um produto, através do cateter que tinha na mão. Fiquei cerca de uma hora a soro e depois retomaram o tratamento, que correu bem. O produto que estava nas injecções era forte, estive a dormitar durante cerca de duas horas e acabei por ficar um pouco azamboada o resto do dia. A mão inchou-me um pouco. É normal. Tudo isto é normal. E já só faltam 8 sessões.
 
Quando passei pelo período de dores, na semana do primeiro tratamento, decidi que tinha que fazer uma opção consciente e gerir e digerir tudo isto com base nessa decisão. Tinha duas escolhas: pensar que ainda faltavam 9 sessões ou que já faltavam 9 sessões. Optei pela última.
 
A minha amiga Teresa, que me convenceu a escrever estes relatos, diz que gosta de acreditar que o nosso sofrimento acaba por resgatar a dor de alguém, num outro ponto qualquer do mundo. É uma ideia que me conforta.
 
Vamos lá enfrentar a fera, que hoje deve ter morrido um pouquinho mais. Adoro animais, mas não destes que se infiltram dentro de nós, proliferando-se por onde não devem.
 
Já não tenho cabelo. Ao fim de duas semanas começou a cair e passei a usar lenço. Quando já só tinha uma penugem, o meu cunhado Luís aplicou-me uma dose certeira de máquina zero. Acabaram-se os cabelinhos a fazer comichão no pescoço e a proliferarem como ervas daninhas nas minhas almofadas. Na primeira semana de trabalho ainda fui sem lenço. Soube tão bem voltar! No meio destes momentos menos bons, tenho tantos que compensam que cada vez estou mais convicta que superam qualquer bicho de faz-de-conta.
 
Nunca pensei viver na pele uma história de cancro. Ser uma doente oncológica e de repente ter que lidar com juntas médicas, análises, ressonâncias magnéticas ou TAC, quimio e rádio. Mas se isto não tivesse acontecido, também não conheceria mais de perto as pessoas que estão nesta situação. Quando nos despedimos umas das outras, não dizemos ‘até à próxima’ ou ‘gostei de te ver’. Não faz muito sentido. É quase sistemático ouvir ‘as melhoras de todos’. E ficamos felizes. Eu fico.
 
Por mais que tentemos colocar-nos no lugar dos outros, o certo é que nunca conseguimos fazê-lo verdadeiramente se não passarmos pelo mesmo. Podemos imaginar, mas ficamos aquém. Digo isto porque uma amiga de infância contou-me em Abril que tinha um carcinóide nos intestinos e que já havia metástases no fígado. Fiquei de lágrimas nos olhos. Ela tem a minha idade e eu não me sentia preparada para a perder num prazo de cinco anos, como ela vaticinou. Felizmente, soube-se depois, já após as cirurgias a que foi submetida, que o fígado estava bem. E eu, que naquele dia de Abril lhe disse que o importante é viver cada dia como se fosse o último – sempre pensei assim, que podíamos ir na rua e sermos atropelados no dia seguinte -, eu que disse tudo isso... quando afinal me tocou a mim senti-me triste, desamparada e com uma certa raiva. ‘Que fiz eu para merecer isto?’. Acho que esta é a pergunta que cada um de nós se coloca quando algo de mau nos acontece.
publicado por carla às 01:57
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2 comentários:
De daniela a 1 de Junho de 2009 às 14:23
Ola, como voce esta?

so estou lendo agora , tres anos depois?
me mande noticias de voce
Minha mae tem a mesma doenca

Daniela
De Carla a 10 de Agosto de 2009 às 03:02
Olá, Daniela. Só agora vi este comentário. Eu estou bem :) Exames de 4 em 4 meses (agora vai passar a ser de 6 em 6) e felizmente, até à data, bichinho erradicado! A sua mãe ainda está em tratamentos? Qualquer coisa que precise de falar comigo, o meu mail é carla.pedro@gmail.com. Tudo de bom*

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