Quinta-feira, 9 de Novembro de 2006

6º tratamento

7 de Novembro de 2006
 
“Há um lírio calado na minha sombra,
à espera da sua vez,
para desabrochar com mais força
do que todas as outras flores
que estiveram na minha luz.”
 
Hoje fui atendida mais depressa. Às 10h30 já estava a ser puncionada e comecei logo a levar soro. Só comecei o tratamento, propriamente dito, às 11h30. Foi correndo tudo bem mas, pelas 17h30, a enfermeira Ana viu um alto na minha mão e disse que a veia tinha rebentado. Por acaso não extravazou, por isso não me queimou a mão. Faltava cerca de meia hora para terminar. Se fosse menos, perdoava e não me picava de novo, mas assim não foi possível. Custou-me tanto! A punção é o que custa sempre mais. Mas enfim, já passou.
 
Enquanto eu estava no tratamento, a minha mãe foi ter com a minha médica à consulta e já temos a carta para apresentar na Clínica Quadrantes, em Carnaxide. Sei que vão ser seis semanas de rádioterapia e braquiterapia, mas só na próxima semana é que saberei se vai ser todos os dias ou não. Começo daqui a três semanas. Andei a ler sobre braquiterapia e vejo que tem tido muito êxito, mas não me agradou nada a ideia de rádioterapia interna, acho uma invasão. Mas pronto, tem que ser... A minha médica está mesmo decidida a eliminar qualquer hipótese de reincidências, acho eu. É uma excelente médica.
 
Como desta vez fiquei na sala pequena, que já tem os aparelhos que monitorizam a medicação, conversei mais. Éramos apenas seis e falámos imenso. A senhora que estava ao meu lado começou pela radio e agora está a fazer quimio. Primeiro teve cancro da mama e depois descobriu que tinha sido atingida também na vesícula e cabeça. É uma lutadora, tem um ar muito sereno. A mãe dela morreu há 27 anos, porque tinha cancro da mama mas não quis curar-se. Andou dois anos a resistir e quando finalmente decidiu tratar-se já não havia nada a fazer, já se tinha espalhado. Uma outra senhora que lá estava tem cancro na zona junto ao pescoço, anda toda curvada. Está sempre atenta para ver quando é que o tratamento está prestes a terminar e pede a uma das auxiliares para telefonar aos bombeiros do Carregado para que a vão buscar. Não tem ninguém... e eu vejo como sou uma sortuda.
 
Os meus pais levam-me sempre aos tratamentos, depois a minha mãe fica lá e quando termino o meu pai vai buscar-nos. Ainda hoje à tarde a minha mãe passou pela sala onde eu estava e perguntou se eu queria alguma coisa. Eu estava com desejos de um cheeseburguer da MacDonald’s e lá foi a minha mãe ao Rossio comprar-me um. E tem ido sempre falar com a médica enquanto eu estou nos tratamentos, caso contrário eu teria que lá voltar num outro dia. É tão bom termos quem nos ajude!
publicado por carla às 00:23
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8 comentários:
De (M)Ana a 9 de Novembro de 2006 às 16:16
Sim, é bom termos quem nos ajude. Há um filme do James Stewart em que no fim dizem que ele é um homem muito rico porque tem amigos, pessoas que gostam dele. E assim és tu!
Eu leio estes relatos e fico sempre com um nó na garganta. Por ti e pelas pessoas de quem vais falando. Mas leio-te sempre absorta e vorazmente. E sinto sempre uma vontade tremenda de te abraçar, para ver se o meu abraço faz o bicho ir embora. Vou continuar a tentar! :)
Beijo enorme, manita querida! Muito enorme!
De Carla a 9 de Novembro de 2006 às 18:30
(M)Anita, a conclusão desse filme é mesmo verídica. Sem amigos, qualquer caminhada fica mais pesada, mais vazia... Eu sinto o teu abraço, manita, e retribuo com um sorriso enorme! Um beijo grandeee! :)
De hperika a 9 de Novembro de 2006 às 17:26
Pessoalmente sempre fiquei com a sensação de que a quimio é bem mais agressiva.
Quanto à rádio e à braqui é relativo.
Mas tenho a certeza que vais superar e que vais aguentar bem.
Quanto a mim sempre achei que não ía aguentar tudo sozinha. Mas fui buscar forças aos confins.
Olho para trás e vejo um caminho de cansaço mas de vitória.
Tenho a certeza que também vais ter essa oportunidade. Com a ajuda dos que te rodeiam e se preocupam vais ver que vai parecer "uma travessia no deserto com ar condicionado, coca-cola e uns cheeseburguers".

Beijinho grande.

PS: sabes o nome dos médicos que te vão atender em Carnaxide?
De Carla a 9 de Novembro de 2006 às 18:32
Sãozita, tenho em ti um verdadeiro exemplo de força. Mesmo nos piores momentos, conseguias estar presente para todos aqueles que também precisavam de mimos. Sei que vou conseguir como tu conseguiste, és um modelo para mim! :)) Sei que vou ser atendida por um casal (ele para a radio, ela para a braqui). Foi nesta clínica que andaste? / Adorei esse teu projecto de travessia... quero que seja exactamente assim! :) Beijo grande :)
De Eunice onofre a 19 de Novembro de 2006 às 17:18
Alô Carla...

Já não te visitava há algum tempo... segui-te durante os primeiros meses, bem de perto, e dei-te toda a força possível. Hoje estou especialmente sensível, vulgo piegas, e quando " te li", desmontei-me...já há muito que não chorava e por vezes ajuda...adorei a parte do cheeseburguer. Lembrei-me do primeiro pensamento que tive quando me detectaram cancro: " e agora...como é que eu digo à minha mãe que vou morrer primeiro do que ela?" sim... porque mãe é mãe, e nenhum filho "tem o direito" de partir primeiro! Claro que tambem eu contei sempre com a presença dela, do meu pai, que me rapou o cabelo antes que caísse todo, ao mesmo tempo que dizia" tens uma cabeça tão bonita... tão redondinha...como quando eras bebé" e ia guardando no coração todas lágrimas de quem teme perder uma parte integrante de si, para que eu não o visse chorar. Mas já passou...passaram 3 anos, mas eu acho que passaram séculos...! Vais ver que te acontece o mesmo quando tudo acabar. fica tudo tão longe!! Para nos lembrar, apenas a obrigatoriedade dos exames e consultas. Vou continuar a " ler-te " e a estar contigo. para ti um beijo enooooooorme!!!!
Eunice ( amiga da Teresa)
De Carla a 21 de Novembro de 2006 às 11:38
Querida Eunice,

Obrigada pelo teu testemunho. É muito importante para mim ouvir outras pessoas que passaram pelo mesmo e que cá estão para dizer que correu tudo bem. Emocionei-me com a parte do corte de cabelo... aos nossos pais custa tanto, mas ganham forças onde nem pensavam que as tinham. Também foi um dos meus primeiros pensamentos: e eles? Os pais não estão preparados para verem os filhos partir primeiro. Fico muito feliz por tudo ter corrido bem. És um exemplo de que isto pode ser vencido. Obrigada por todo o carinho. Um beijo enorme!
De minizinha a 28 de Novembro de 2006 às 11:59
:)

Ai amiga, tenho andado tão distraída que só hoje descobri este teu blog, e claro que já o li de fio a pavio. Tenho a sensação que o arrepio que se instalou não vai desaparecer tão cedo!!!!! É sobretudo porque o que leio deixa transparecer tanto, mas tanto carinho, por ti claro e tu pelos outros. Eu que pensava que o egoísmo e a insensibilidade se tinham instalado no ser humano, chego aqui e começo a acreditar que ainda existem pessoas, realmente, boas e puras. Ainda bem que fazes estes relatos, escusamos de te andar sempre a massacrar (no bom sentido, claro), com perguntas, e assim podemos, como tu muito bem escreveste (aliás escreves sempre), respeitar o teu espaço. (adoro o título do blog)!!!!!! "É tão bom ter quem nos ajude", e tu, que neste momento precisas tanto dessa ajuda, nem imaginas o quanto ajudas os outros, só por seres como és!!!!!!! E pronto que já estou nhonhinhas demais e tenho medo que o sal estrague o teclado, ihihihihihi (tinha de rematar com a minha gargalhada, claro, para desanuviar)!!!!!
E um bahhhhhhhhhhhhh, para o bichinhofazdeconta.
Beijos dos nossos e em quantidades inimagináveis ********************************
:)
De carla a 29 de Novembro de 2006 às 15:27
Minzita querida, também fiquei nhonhinhas, mas sabe tão bem! :)) Por falar em pessoas boas, já te viste ao espelho? Eu devo ser mesmo uma grande sortuda, pois tenho sido rodeada de amigos fantásticos. Apesar de te conhecer há menos de um ano, parece que te conheço desde sempre :)) Obrigada por seres como és! Um beijo enormeeeeeeeeee :)

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